Algo cheira mal
Fede muito igual
A carne putrefata
No asfalto quente
Odor indigesto
De pele suídea
Catinga de ave catartídea
O próprio cu do urubu
Há algo de infeto
Na república federativa
Corrupção chorume
Passiva ou ativa
Tudo é simples resto
Da política degradada
Do estado em decomposição
Indescência
Insestuoso indecoroso
Seu sorriso vagabundo
Meio de canto meio escondido
Como puta na beira do beco
Que topa qualquer coisa
Eu
malandro do morro
Adentro nas vielas
Dos puteiros
Pelas ruas perigosas
Do meu quarto
Sigo vagabundamente
Em sua direção
Atravesso a cama
Sem olhar pro lado
Seu sorriso vagabundo
Meio de canto meio escondido
Como puta na beira do beco
Que topa qualquer coisa
Eu
malandro do morro
Adentro nas vielas
Dos puteiros
Pelas ruas perigosas
Do meu quarto
Sigo vagabundamente
Em sua direção
Atravesso a cama
Sem olhar pro lado
Alicerce
Construir rimas
Construir pontes
Leva o mesmo tempo
Construir formas
Construir ideias
Leva o mesmo tempo
Construir palavras concretas
Construir monumentos
Leva o mesmo tempo
Construir palafitas
Construir plataformas
Leva o mesmo tempo
Construir teoria
Construir teorema
Leva exatamente o tempo
De um poema
Construir pontes
Leva o mesmo tempo
Construir formas
Construir ideias
Leva o mesmo tempo
Construir palavras concretas
Construir monumentos
Leva o mesmo tempo
Construir palafitas
Construir plataformas
Leva o mesmo tempo
Construir teoria
Construir teorema
Leva exatamente o tempo
De um poema
Abraço
Arco largo do braço
Laço envolvente
Carência latente
Socorro urgente
Bocarra que engole
Devora qualquer reação
No apertado vão
Da braçada fechada
Abarca com força
Abrasa o frio
Cerco perfeito
Traz decerto
Alguém para perto
Do buraco-negro
Afeito ao peito
Laço envolvente
Carência latente
Socorro urgente
Bocarra que engole
Devora qualquer reação
No apertado vão
Da braçada fechada
Abarca com força
Abrasa o frio
Cerco perfeito
Traz decerto
Alguém para perto
Do buraco-negro
Afeito ao peito
A horta
Óbito óbvio do amor
Na horta morta
Nada brota
Então prepara a terra
Implante plantas
Mudas de mudanças
Brotos de esperança
No arado sêco
Do canteiro da aorta
Na horta morta
Nada brota
Então prepara a terra
Implante plantas
Mudas de mudanças
Brotos de esperança
No arado sêco
Do canteiro da aorta
Portas
Por princípio
Nunca fecho portas
Meu peito aberto
É ampla sala-de-estar
Entra quem quiser entrar
Pode chegar sem avisar
Pode entrar sem cerimônia
Mas sem muita bagunça
No canto esquerdo
Um coração afadigado
Necessita descansar
Nunca fecho portas
Meu peito aberto
É ampla sala-de-estar
Entra quem quiser entrar
Pode chegar sem avisar
Pode entrar sem cerimônia
Mas sem muita bagunça
No canto esquerdo
Um coração afadigado
Necessita descansar
Banho-maria
Ela jogou água fria
No meu banho-maria
Disse chega de tanto
Porém contudo todavia
Quero você adjunto de mim
Convém sobretudo toda vida
No meu banho-maria
Disse chega de tanto
Porém contudo todavia
Quero você adjunto de mim
Convém sobretudo toda vida
Você
Quando vi você
O ar sumiu
Me joguei do alto
Respirei mais fundo
Mergulhei num mar
Quando você sorriu
O chão se abriu
O coração parou
Para o amor passar
Não tava ali
Para ver você
Mas vi
O ar sumiu
Me joguei do alto
Respirei mais fundo
Mergulhei num mar
Quando você sorriu
O chão se abriu
O coração parou
Para o amor passar
Não tava ali
Para ver você
Mas vi
O sedutor
A palavra certa
É a seta da flecha
Que acerta a presa
Presa na lábia do sedutor
A refém do discurso
Rende-se ao caçador astuto
Que escolhe a palavra como arma
E o sorriso como escudo
É a seta da flecha
Que acerta a presa
Presa na lábia do sedutor
A refém do discurso
Rende-se ao caçador astuto
Que escolhe a palavra como arma
E o sorriso como escudo
Licença poética
Ao tentar entrar
Fui barrado por um haikai
Desses baixinhos mal-encarados
Foi então que vi passando
Um soneto conhecido
Que sequer olhou para mim
Talvez por eu não calçar boas rimas
Ou não trajar um bom poema
A atitude desesperada
Foi sacar minha licença
Abram alas para o poeta
Entrei de carteirada
Passei pelos sonetos
E me juntei aos versos livres
Com eles fico à vontade
Graças à imunidade
Fui barrado por um haikai
Desses baixinhos mal-encarados
Foi então que vi passando
Um soneto conhecido
Que sequer olhou para mim
Talvez por eu não calçar boas rimas
Ou não trajar um bom poema
A atitude desesperada
Foi sacar minha licença
Abram alas para o poeta
Entrei de carteirada
Passei pelos sonetos
E me juntei aos versos livres
Com eles fico à vontade
Graças à imunidade
Portal
O livro é portal do tempo
Encurta distâncias
Engana a morte sem querer
Hoje sou amigo íntimo de Neruda
Que morreu antes d'eu nascer
Encurta distâncias
Engana a morte sem querer
Hoje sou amigo íntimo de Neruda
Que morreu antes d'eu nascer
Colcha de retalhos
Boas mãos tecem a ida
Numa grande colcha de retalhos
Histórias alinhavadas à vida
Desenhos de contorno irregular
A linha-guia do tear
Segue a fio sem parar
Tece trama a trama
Amor e drama
Cada parte de vida
Remendada à colcha
É tudo o que vi
Síntese de um caminho
Que nem sempre teci
Numa grande colcha de retalhos
Histórias alinhavadas à vida
Desenhos de contorno irregular
A linha-guia do tear
Segue a fio sem parar
Tece trama a trama
Amor e drama
Cada parte de vida
Remendada à colcha
É tudo o que vi
Síntese de um caminho
Que nem sempre teci
Quando tem de acontecer
Para Cássio e Marici
Quando acontece
Parece coincidência
É na mesma esfera
Na mesma banda
Do planeta
Quando acontece
Parece providência
É ao mesmo tempo
Sem aviso nem data
Sem hora marcada
Quando acontece
O corpo diz
A pele esquenta
A pupila dilata
A gente é feliz
Quando acontece
A gente quer sumir
Um convite para fugir
Tomar um chopp
Tomar um avião
Viajar
Acontece de repente
A gente sente
Sabe e entende
Porque só acontece
Quando tem de acontecer
Quando acontece
Parece coincidência
É na mesma esfera
Na mesma banda
Do planeta
Quando acontece
Parece providência
É ao mesmo tempo
Sem aviso nem data
Sem hora marcada
Quando acontece
O corpo diz
A pele esquenta
A pupila dilata
A gente é feliz
Quando acontece
A gente quer sumir
Um convite para fugir
Tomar um chopp
Tomar um avião
Viajar
Acontece de repente
A gente sente
Sabe e entende
Porque só acontece
Quando tem de acontecer
Gentileza
Gente perde gentileza
Vejo com clareza
Em qualquer ponto
Na fila do banco
No banco de trás
Gente perde gentileza
Vejo com clareza
Hoje mesmo
Perto daquela rua
A estupidez atropelou
Um sorriso cortês
Gente perde gentileza
Vejo com clareza
A qualquer momento
O bom-dia fica em casa
O boa-noite não sai no escuro
Vejo com clareza
Em qualquer ponto
Na fila do banco
No banco de trás
Gente perde gentileza
Vejo com clareza
Hoje mesmo
Perto daquela rua
A estupidez atropelou
Um sorriso cortês
Gente perde gentileza
Vejo com clareza
A qualquer momento
O bom-dia fica em casa
O boa-noite não sai no escuro
É foda!
Fodam-se os críticos
Fodam-se todos os políticos
Fodam-se os periódicos
Fodam-se todos os pedófilos
Fodam-se os cruéis assassinos
Fodam-se todos os covardes
Fodam-se os fiéis eleitores
Fodam-se todos os seguidores
Fodam-se os inertes inocentes
Fodam-se todos os indecentes
Fodam-se sobretudo os descrentes
Por causa deles
De todos eles
A vida é foda!
Fodam-se todos os políticos
Fodam-se os periódicos
Fodam-se todos os pedófilos
Fodam-se os cruéis assassinos
Fodam-se todos os covardes
Fodam-se os fiéis eleitores
Fodam-se todos os seguidores
Fodam-se os inertes inocentes
Fodam-se todos os indecentes
Fodam-se sobretudo os descrentes
Por causa deles
De todos eles
A vida é foda!
Poesia de bolso
Pus a mão no bolso
E lá estava ela
Canguru
Porque ela cabe
Como cabide
Em pouco espaço
Na palma da mão
Ou debaixo do braço
Porque ela tem alcance
Na bolsa da moça
Ou bolso da calça
Longe da beira
Da estante
Ela num instante
Enche o vazio
E lá estava ela
Canguru
Porque ela cabe
Como cabide
Em pouco espaço
Na palma da mão
Ou debaixo do braço
Porque ela tem alcance
Na bolsa da moça
Ou bolso da calça
Longe da beira
Da estante
Ela num instante
Enche o vazio
Carolina
Carola de Coralina
Carolina lia corada
Versos de Cora
Na colina
Cachos encaracolados
Coral de caracol
Carolina ainda decora
Versos de Cora
Na malina
A colina era só minha
De Cora e Carolina
Carolina lia corada
Versos de Cora
Na colina
Cachos encaracolados
Coral de caracol
Carolina ainda decora
Versos de Cora
Na malina
A colina era só minha
De Cora e Carolina
Assinar:
Comentários (Atom)