Canhões de Camões

Atirei no vidro
Pedras e rimas
Canhões de Camões
Para nos libertar

Libera das amarras
Os desejos libertários
Dos pensamentos libertinos

Libera das garras
Os latejos revolucionários
Dos alentos clandestinos

Hoje de noite
Destranca o cadeado
Deixa a porta entreaberta

Entrarei descalço
Desarmado até o dente

Qualquer coisa

Quem me compra
Um sentimento?
Quaisquer duzentos gramas de emoção
Ou uma porção de sensação
Que caiba na palma da mão
Qualquer coisa que traga a alegria
Dos dias em que por amor
Morreria

Brilho

Você é parte
De um mundo à parte
De um sonho bom
De tudo que sempre quis
De um verso meu

Você é linda assim
Quando simplesmente sorri
E sempre que me olha
Com um olhar que me deixa
Como criança frente ao mar
Como beija-flor que beija
A seiva bruta do verde dos seus olhos
Até embriagar-se de vida

Livro de cabeceira

A página trinta
Guarda uma marca
A folha envelhecida
Destaca um soneto
Talvez o seu predileto

Como mapa secreto
Decifrei as entrelinhas
Parte por parte

Naquela tarde
Decorei você

ONG

Vou criar uma ONG
Para me proteger

Organização independente
De caráter assistencialista
Terá difícil missão
Salvar da extinção
Minha esperança
Defender da agressão
Meu ambiente

Mapeamento recente
Mostra grande devastação
Fuligem da mente
Clareira crescente

Grande queimada
Atinge área restrita
Restringe minha vida
E não para

Minha fé virou
Espécie rara

Arraial D`ajuda

Lua no teto
Estrelas no chão
Coleção de luzes
No meio do caminho

Caminhamos sem fronteira
Sem eira nem beira
Sem relógio no pulso
Nem hora marcada

No curto trajeto
Pés descalços
Desacostumados com chão
Esmagam quaisquer percalços

Caminhamos com tranquilidade
Nenhum roteiro nos conduz
Transformamos com liberdade
Poucos metros em anos-luz

É de dar dó!

Quando passa
Faz que não me vê
Você se sente tão só
Eu me sinto tão seu

Passa apressada
Sem olhar para trás

Meu olhar se perde
Atravessa a praça
Dobra a esquina
Com você

Flor do cerrado (ou TPM)

Quase um doce
Muito sutil

Chegou mais perto
Muito elegante

Falou baixinho
Muito discreta

Sou frágil
Muito sensível

Exijo cuidado
Muita atenção

Seja educado
Nunca me maltrate

Caso contrário
Esfolo vivo
Corto o pinto
Jogo no cerrado
Largo no mato
Chamo meu advogado

Santo-do-pau-ôco

Perceba minha cara de espanto
Sempre que me chama de santo
Minha casca é dura
De pau

Ôco por dentro
Tenho traços do barroco
Transporto segredos
Trago de contrabando
Valiosas madrugadas
Várias noites mal dormidas

Risco

Sou burro
Dou murro
Em ponta

Figuro onde
É inseguro

Fraturei braço
Quebrei perna
Mil vezes a cara

Impossível entender
Arrisco sempre
Quando acredito

O apartamento

Entrei
Discursos jogados no chão
Lembranças estiradas na sacada
O apartamento não estava tão vazio

A parede ainda guarda
Marcas das nossas mãos
Os carros passam lá fora
Em ondas curtas
O som do asfalto ainda lembra o mar

A esuridão da rua pareceu menos breu
Fechei meus olhos junto com a porta
E definitivamente sai

Cicatriz

A vida ávida
Traz riscos
Delicadas imperfeições
Nas feições da epiderme

A vida ávida
Repele histórias
Memórias da derma
O acontecido no tecido

É dermagrafia do corpo
O que a pele diz
Um acidente grafado
Em cada cicatriz

Política

Algo cheira mal
Fede muito igual
A carne putrefata
No asfalto quente

Odor indigesto
De pele suídea
Catinga de ave catartídea
O próprio cu do urubu

Há algo de infeto
Na república federativa
Corrupção chorume
Passiva ou ativa
Tudo é simples resto
Da política degradada
Do estado em decomposição

Indescência

Insestuoso indecoroso
Seu sorriso vagabundo
Meio de canto meio escondido
Como puta na beira do beco
Que topa qualquer coisa

Eu
malandro do morro
Adentro nas vielas
Dos puteiros
Pelas ruas perigosas
Do meu quarto

Sigo vagabundamente
Em sua direção
Atravesso a cama
Sem olhar pro lado

Alicerce

Construir rimas
Construir pontes
Leva o mesmo tempo

Construir formas
Construir ideias
Leva o mesmo tempo

Construir palavras concretas
Construir monumentos
Leva o mesmo tempo

Construir palafitas
Construir plataformas
Leva o mesmo tempo

Construir teoria
Construir teorema
Leva exatamente o tempo
De um poema

Abraço

Arco largo do braço
Laço envolvente
Carência latente
Socorro urgente

Bocarra que engole
Devora qualquer reação
No apertado vão
Da braçada fechada
Abarca com força
Abrasa o frio

Cerco perfeito
Traz decerto
Alguém para perto
Do buraco-negro
Afeito ao peito

A horta

Óbito óbvio do amor
Na horta morta
Nada brota

Então prepara a terra
Implante plantas
Mudas de mudanças
Brotos de esperança
No arado sêco
Do canteiro da aorta

Portas

Por princípio
Nunca fecho portas
Meu peito aberto
É ampla sala-de-estar

Entra quem quiser entrar
Pode chegar sem avisar
Pode entrar sem cerimônia
Mas sem muita bagunça

No canto esquerdo
Um coração afadigado
Necessita descansar

Banho-maria

Ela jogou água fria
No meu banho-maria
Disse chega de tanto
Porém contudo todavia
Quero você adjunto de mim
Convém sobretudo toda vida

Você

Quando vi você
O ar sumiu
Me joguei do alto
Respirei mais fundo
Mergulhei num mar

Quando você sorriu
O chão se abriu
O coração parou
Para o amor passar

Não tava ali
Para ver você
Mas vi

O sedutor

A palavra certa
É a seta da flecha
Que acerta a presa

Presa na lábia do sedutor
A refém do discurso
Rende-se ao caçador astuto
Que escolhe a palavra como arma
E o sorriso como escudo

Licença poética

Ao tentar entrar
Fui barrado por um haikai
Desses baixinhos mal-encarados

Foi então que vi passando
Um soneto conhecido
Que sequer olhou para mim
Talvez por eu não calçar boas rimas
Ou não trajar um bom poema

A atitude desesperada
Foi sacar minha licença
Abram alas para o poeta
Entrei de carteirada

Passei pelos sonetos
E me juntei aos versos livres
Com eles fico à vontade
Graças à imunidade

Portal

O livro é portal do tempo
Encurta distâncias
Engana a morte sem querer

Hoje sou amigo íntimo de Neruda
Que morreu antes d'eu nascer

Colcha de retalhos

Boas mãos tecem a ida
Numa grande colcha de retalhos
Histórias alinhavadas à vida
Desenhos de contorno irregular

A linha-guia do tear
Segue a fio sem parar
Tece trama a trama
Amor e drama

Cada parte de vida
Remendada à colcha
É tudo o que vi
Síntese de um caminho
Que nem sempre teci

Quando tem de acontecer

Para Cássio e Marici

Quando acontece
Parece coincidência
É na mesma esfera
Na mesma banda
Do planeta

Quando acontece
Parece providência
É ao mesmo tempo
Sem aviso nem data
Sem hora marcada

Quando acontece
O corpo diz
A pele esquenta
A pupila dilata
A gente é feliz

Quando acontece
A gente quer sumir
Um convite para fugir
Tomar um chopp
Tomar um avião
Viajar

Acontece de repente
A gente sente
Sabe e entende
Porque só acontece
Quando tem de acontecer

Gentileza

Gente perde gentileza
Vejo com clareza
Em qualquer ponto
Na fila do banco
No banco de trás

Gente perde gentileza
Vejo com clareza
Hoje mesmo
Perto daquela rua
A estupidez atropelou
Um sorriso cortês

Gente perde gentileza
Vejo com clareza
A qualquer momento
O bom-dia fica em casa
O boa-noite não sai no escuro

É foda!

Fodam-se os críticos
Fodam-se todos os políticos
Fodam-se os periódicos
Fodam-se todos os pedófilos
Fodam-se os cruéis assassinos
Fodam-se todos os covardes
Fodam-se os fiéis eleitores
Fodam-se todos os seguidores
Fodam-se os inertes inocentes
Fodam-se todos os indecentes
Fodam-se sobretudo os descrentes

Por causa deles
De todos eles
A vida é foda!

Poesia de bolso

Pus a mão no bolso
E lá estava ela
Canguru

Porque ela cabe
Como cabide
Em pouco espaço
Na palma da mão
Ou debaixo do braço

Porque ela tem alcance
Na bolsa da moça
Ou bolso da calça

Longe da beira
Da estante
Ela num instante
Enche o vazio

Carolina

Carola de Coralina
Carolina lia corada
Versos de Cora
Na colina

Cachos encaracolados
Coral de caracol
Carolina ainda decora
Versos de Cora
Na malina

A colina era só minha
De Cora e Carolina

Quando gatos se amam

Quando gatos se amam
Todos acham assustador
Atentado ao pudor

Gatos sobem
Ouriçados um no outro
Em qualquer lugar

Gatos se mordem
Selvagens e agressivos
Enquanto se posicionam

A fêmea atracada
Ataca o macho
Solta desafinado miado
Tão alto que invade
A intimidade dos tímpanos
Na privacidade dos lares
Nas salas e jantares

Mia insolente
Com devassa vontade
Mia indecente
No meio da rua

No fundo
Chega a dar inveja
Na gente

Junho

Para meu filho, Henrique

Onze do mês
Dois mil e seis
Seis e três

Nasce
Um dia solto
Sorriso exposto
No meu rosto

Nasce
Meu primeiro dia
De navegante
Radiante

Nasce
Amplo horizonte
Brilhante
No raiar do dia
Amanhece Henrique

Da vida

Da vida
Ninguém sai vivo
Dela todo mundo traz
Arranhões e cicatrizes
Algumas farpas na pele
Marcas profundas
Alguma poesia
Alguma canção
Uma boa lembrança
Uma lágrima também

Ileso da vida
Ninguém escapa

Fome

Farei dos seios
Minha ceia
Dos fartos lábios
Meu banquete
Das maçãs nádegas
Meu fraco

Quero apetitosos peitos
Quero suculentas pernas
Quero todo sorriso
Quero todo aroma
Quero toda fartura

Quero morder sua boca
Quero provar seu beijo
Hoje estou com fome
De você

Bala perdida

Alguém perde a bala
Como se doce fosse
A bala sortida

Desabaladamente perdida
A bala atrevida fura a avenida
Abre exposta ferida

O tiro abala a vida
Encontra um corpo
Marca o chão

O tiro embala o medo
Metido à força na cabeça
De todo cidadão

Capitão do Mar

Para meu avô

A cada ano um oceano
Bem à frente do meu tempo
Encontrei o pai de minha mãe
Conduzindo louco a sua nau

Aqui no ocidente
Não há fé que me oriente
Ensina-me a navegar
Capitão do mar

Da pele herdei o sal
Também sou pirata
Da cara-de-pau

Há tempos quebrei minha bússola
Só para sentir o perfume
Da rosa dos ventos
E partir sem direção

Raiz quadrada

Sua cabeça quadrada
Enquadra-me
Como líder de quadrilha
Das histórias em quadrinhos
Imaturo ao quadrado

Seu velho esquadro
Traça um quadro errado
Sequer conhece a raiz quadrada
Da metade de mim

Arrebol

Aquelas nuvens douradas de sol
As que irradiam alegria
Lembram-me seus cabelos girassóis
E a mansidão clara do olhar
Quando seu azul era todo meu
E meu sorriso todo céu

A ideia

Do livro Homem de Trinta (2002)

Semente que fecunda a mente
Brilho da luz fugente
Parente do pensamento

Explosão por debaixo do cabelo
Expansão do universo cerebelo
Brasa da profissão
Lenha da criação

Estrela cadente
Na estratosfera do inconsciente
Surge de repente
Estoura silenciosamente

Brasília

Do livro Homem de Trinta (2002)

Pássaro de concreto
De voo plano e alto
Tão alto quanto meus sonhos
Sonhos projetados
Como tua arquitetura

Dizem que o desequilíbrio
Da falsa simetria
Está no traço torto do poder

Digo que tuas retas e traços
São infinitos como a paixão
Que despertas em mim
E que de todos os poderes
Mais forte é o poder do teu céu

Cabelos compridos

Do livro Homem de trinta (2002)

Carrego nos cabelos compridos
Fios de rebeldia
Pontas da adolescência

Carrego nos cabelos compridos
Fios de alta tensão
Pontas desencapadas

Carrego nos cabelos compridos
Cachos de preocupação
A ideia permanente
De que tudo é frágil e quebradiço
Ou parece estar sempre por um fio

Quarteto erótico

Do livro Homem de Trinta (2002)

Ainda tenho
Teus seios em minhas mãos
Como taça do bom vinho
Fazendo ardente teu beijo tinto

Na cama
Ofegante pecador
Beijando tuas coxas grossas
E lambendo teu pudor

Tocaia

Do livro Homem de Trinta (2002)

Tocaia na esquina
Um estampido
Um tiro no escuro
E o amor sangrou

Alergia

Do livro Homem de Trinta (2002)

Tenho alergia a coisas frias
Não me abrace sem amor
Não me olhe sem me ver
Não me beije sem querer

Eu fico tão mal
Que posso até morrer

Prisão

Do livro Homem de Trinta (2002)

Eu que já tive amor bandido
Fico desarmado com teu jeito
Sou refém do meu desejo

Eu que já tive amor bandido
Estou na cela à espera
É a prisão que eu mesmo fiz

Eu que já tive amor bandido
Sei que meu crime nem foi tão grave
Violar teus lábios
Saquear-te um beijo

Carnaval

Do livro Homem de Trinta (2002)

Lá vem um pierrô
Descendo o morro
Com uma lágrima no rosto

Dizem que o pierrô
É um palhaço
Que perdeu a graça

Mas ele não perdeu a graça
Ele perdeu o pai
Na guerra do pó
Ele perdeu um filho
Que morreu com um tiro
Ele perdeu o emprego
E ganhou outro filho

Mesmo assim
Que cidade maravilhosa
Diz o turista
É carnaval
E lá vem um pierrô
Descendo o morro
Pulando e cantando
Com uma lágrima
No rosto