Quando gatos se amam

Quando gatos se amam
Todos acham assustador
Atentado ao pudor

Gatos sobem
Ouriçados um no outro
Em qualquer lugar

Gatos se mordem
Selvagens e agressivos
Enquanto se posicionam

A fêmea atracada
Ataca o macho
Solta desafinado miado
Tão alto que invade
A intimidade dos tímpanos
Na privacidade dos lares
Nas salas e jantares

Mia insolente
Com devassa vontade
Mia indecente
No meio da rua

No fundo
Chega a dar inveja
Na gente

Junho

Para meu filho, Henrique

Onze do mês
Dois mil e seis
Seis e três

Nasce
Um dia solto
Sorriso exposto
No meu rosto

Nasce
Meu primeiro dia
De navegante
Radiante

Nasce
Amplo horizonte
Brilhante
No raiar do dia
Amanhece Henrique

Da vida

Da vida
Ninguém sai vivo
Dela todo mundo traz
Arranhões e cicatrizes
Algumas farpas na pele
Marcas profundas
Alguma poesia
Alguma canção
Uma boa lembrança
Uma lágrima também

Ileso da vida
Ninguém escapa

Fome

Farei dos seios
Minha ceia
Dos fartos lábios
Meu banquete
Das maçãs nádegas
Meu fraco

Quero apetitosos peitos
Quero suculentas pernas
Quero todo sorriso
Quero todo aroma
Quero toda fartura

Quero morder sua boca
Quero provar seu beijo
Hoje estou com fome
De você

Bala perdida

Alguém perde a bala
Como se doce fosse
A bala sortida

Desabaladamente perdida
A bala atrevida fura a avenida
Abre exposta ferida

O tiro abala a vida
Encontra um corpo
Marca o chão

O tiro embala o medo
Metido à força na cabeça
De todo cidadão

Capitão do Mar

Para meu avô

A cada ano um oceano
Bem à frente do meu tempo
Encontrei o pai de minha mãe
Conduzindo louco a sua nau

Aqui no ocidente
Não há fé que me oriente
Ensina-me a navegar
Capitão do mar

Da pele herdei o sal
Também sou pirata
Da cara-de-pau

Há tempos quebrei minha bússola
Só para sentir o perfume
Da rosa dos ventos
E partir sem direção

Raiz quadrada

Sua cabeça quadrada
Enquadra-me
Como líder de quadrilha
Das histórias em quadrinhos
Imaturo ao quadrado

Seu velho esquadro
Traça um quadro errado
Sequer conhece a raiz quadrada
Da metade de mim

Arrebol

Aquelas nuvens douradas de sol
As que irradiam alegria
Lembram-me seus cabelos girassóis
E a mansidão clara do olhar
Quando seu azul era todo meu
E meu sorriso todo céu

A ideia

Do livro Homem de Trinta (2002)

Semente que fecunda a mente
Brilho da luz fugente
Parente do pensamento

Explosão por debaixo do cabelo
Expansão do universo cerebelo
Brasa da profissão
Lenha da criação

Estrela cadente
Na estratosfera do inconsciente
Surge de repente
Estoura silenciosamente

Brasília

Do livro Homem de Trinta (2002)

Pássaro de concreto
De voo plano e alto
Tão alto quanto meus sonhos
Sonhos projetados
Como tua arquitetura

Dizem que o desequilíbrio
Da falsa simetria
Está no traço torto do poder

Digo que tuas retas e traços
São infinitos como a paixão
Que despertas em mim
E que de todos os poderes
Mais forte é o poder do teu céu

Cabelos compridos

Do livro Homem de trinta (2002)

Carrego nos cabelos compridos
Fios de rebeldia
Pontas da adolescência

Carrego nos cabelos compridos
Fios de alta tensão
Pontas desencapadas

Carrego nos cabelos compridos
Cachos de preocupação
A ideia permanente
De que tudo é frágil e quebradiço
Ou parece estar sempre por um fio

Quarteto erótico

Do livro Homem de Trinta (2002)

Ainda tenho
Teus seios em minhas mãos
Como taça do bom vinho
Fazendo ardente teu beijo tinto

Na cama
Ofegante pecador
Beijando tuas coxas grossas
E lambendo teu pudor

Tocaia

Do livro Homem de Trinta (2002)

Tocaia na esquina
Um estampido
Um tiro no escuro
E o amor sangrou

Alergia

Do livro Homem de Trinta (2002)

Tenho alergia a coisas frias
Não me abrace sem amor
Não me olhe sem me ver
Não me beije sem querer

Eu fico tão mal
Que posso até morrer

Prisão

Do livro Homem de Trinta (2002)

Eu que já tive amor bandido
Fico desarmado com teu jeito
Sou refém do meu desejo

Eu que já tive amor bandido
Estou na cela à espera
É a prisão que eu mesmo fiz

Eu que já tive amor bandido
Sei que meu crime nem foi tão grave
Violar teus lábios
Saquear-te um beijo

Carnaval

Do livro Homem de Trinta (2002)

Lá vem um pierrô
Descendo o morro
Com uma lágrima no rosto

Dizem que o pierrô
É um palhaço
Que perdeu a graça

Mas ele não perdeu a graça
Ele perdeu o pai
Na guerra do pó
Ele perdeu um filho
Que morreu com um tiro
Ele perdeu o emprego
E ganhou outro filho

Mesmo assim
Que cidade maravilhosa
Diz o turista
É carnaval
E lá vem um pierrô
Descendo o morro
Pulando e cantando
Com uma lágrima
No rosto