O almoço

Atrás da porta
Um girassol
Acima da janela
A própria estrela
Amarela

Na panela

Um antigo tempero
A velha vontade
De estarmos juntos

Por causa disso
O almoço virou janta
O dia virou noite
E a lua sorriu para mim

Mil por hora

Ninguém percebe
Onde se perde
O fio da meada

De certo
O tempo corrido
É um perigo

Sempre deixa para trás
Um terceiro sentido
Algo que seria prioritário
Se você não tivesse

Simplesmente esquecido.

Henrique

Príncipe do vento
Menino invento
Herdeiro direto
Da linha do tempo

Educar o olhar
Requer nobreza
Exige delicado esforço
Dedicadas horas
De esboço

Imagina só
Hoje aprendi
A cruzar a esquina
Sem dar as mãos

Meu filho me ensinou
A atravessar a rua
Sem olhar para o lado

Canhões de Camões

Atirei no vidro
Pedras e rimas
Canhões de Camões
Para nos libertar

Libera das amarras
Os desejos libertários
Dos pensamentos libertinos

Libera das garras
Os latejos revolucionários
Dos alentos clandestinos

Hoje de noite
Destranca o cadeado
Deixa a porta entreaberta

Entrarei descalço
Desarmado até o dente

Qualquer coisa

Quem me compra
Um sentimento?
Quaisquer duzentos gramas de emoção
Ou uma porção de sensação
Que caiba na palma da mão
Qualquer coisa que traga a alegria
Dos dias em que por amor
Morreria